Artigo Editorial. A Luta de Marielle Franco continua

 

MarielledesenhoImagem: Marielle Franco

* Diorela Kelles

 

O dia 14 de março não foi um dia fácil para o Brasil e especificamente para a cidade do Rio de Janeiro. A cidade, vivendo há um mês uma intervenção federal questionável, em ano de eleições, passou a aceitar qualquer coisa em troca de uma prometida « segurança pública » que ainda não se viu ou sentiu na capital carioca.

Ao se aceitar de tudo, a troca de tiros passou a ser ainda mais comum no cotidiano do cidadão. O tiro passou a fazer parte inclusive da música brasileira, tão banalizado se tornou.

Em meio a este cenário, houve o assassinato da vereadora Marielle Franco (e de seu motorista) na saída de seu trabalho. Eleita em 2017 vereadora do Rio de Janeiro, pelo partido PSOL, ela era presidente da Comissão da Mulher da Câmara Municipal e havia sido designada no dia 28 de fevereiro como relatora da Comissão responsável por acompanhar a Intervenção Federal no Rio de Janeiro.

Os tiros foram nitidamente para matar, não houve assalto, nenhum bem material foi levado. Muito embora o Brasil esteja, infelizmente, se acostumando com notícias de assassinatos, esta repercutiu de uma forma diferente. Isso porque não pareceu ter sido apenas o tiro para tirar uma vida (o que por si só já é injustificável), mas também por ter sido um tiro para calar alguém que trabalhava por Direitos Humanos.

Em sua página pessoal, Marielle havia denunciado há poucos dias, as agressões policiais com os cidadãos moradores do bairro de Acari. Ela também lutava pela visibilidade das mulheres, especialmente das mulheres negras, pela defesa e proteção de transexuais, propunha horário estendido para creches urbanas, num apoio ao direito de trabalho das mulheres menos favorecidas e questionava o aumento do custo do transporte público. Todas pautas que ganhavam mais voz em sua forma carismática e forte de falar.

Provavelmente, sua luta representava ameaça para o poder de muita gente que vivia da exploração do que ela combatia. E para tristeza maior, Marielle não foi um caso isolado. O Brasil é um dos países mais perigosos para se defender Direitos Humanos no mundo. Até agosto de 2017, 58 ativistas haviam sido mortos. No ano de 2016, foram 66 mortes segundo dados do relatório de Ataques Letais daqueles que Defendem os Direitos Humanos divulgados em pela Anistia Internacional. Muito embora o país tenha diversos órgãos voltados e dedicados à defesa dos Direitos Humanos, sua luta não é simples.

A morte de Marielle Franco também desafiou o bom senso do brasileiro, que em meio a tantas notícias, se viu atingido por fake news lançadas por gente e instituições interessadas em políticas muito diferentes do que ela defendia. Num resumo bem precário, as notícias falsas diziam que basicamente Marielle Franco era defensora de bandidos e para eles trabalhava. Argumento comumente utilizado para diminuir o trabalho daqueles que se empenham pelos direitos humanos e ainda para justificar a violência que sofrem.

Não poderiam estar mais enganados. Marielle Franco dedicou-se à assistência de vítimas de violência, inclusive ajudando famílias de policiais. Não havia qualquer ligação sua com o tráfico de drogas ou qualquer outra milícia e associação mafiosa brasileira. Seu discurso era aberto a todos e para transformar a vida na sociedade em algo mais justo e pacífico. Onde o esforço de cada um representasse uma ação concreta para o ambiente onde vive. Onde a violência não seja moeda de troca.

Os tiros que levaram Marielle Franco, não levaram suas ideias. Deixaram para o Brasil, e para o mundo a missão de continuar sua luta. A luta de tantos que morreram para defender um direito que todos temos. Agora são ainda mais vozes e pessoas organizando suas energias para mudar o que se indicou que estava errado. Suas ideias seguem vivas. Ankawa Internacional continuará seu trabalho incansável para a defesa e promoção dos direitos humanos em todo o mundo.

 

DiorelaPhotoAvignon (2)* Diorela Kelles é escritora, jornalista e advogada que atua na popularização dos conhecimentos de Direito, na defesa dos direitos humanos, meio ambiente, direito do trabalho e direito das mulheres. Atualmente pesquisadora associada na Ankawa Internacional e oficial de comunicação. Diorella Kelles vive na França.

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